"Onde está o sábio? Onde está o doutor da lei? Onde está o raciocinador deste século? Acaso Deus não tornou louca a sabedoria do mundo?" 1.Cor, 20.
Se não o saber: à experiência.
Há alguma distinção entre a experiência 'louca' e a experiência concreta? Num vislumbre do abstrato a intermitente angustia aprazível daquele que se vê apaixonado é em-si experiência, tanto quanto, no concreto, lhe bato e sentes.
A loucura, a princípio, por si só, evoca-se à sombra da razão, contudo devemos nos aprofundar; Hegel afirmou que a loucura não seria a perda abstrata da razão: "A loucura é um simples desarranjo, uma simples contradição no interior da razão, que continua presente" contudo a loucura se ilumina à luz da experiência? Se Hegel tornou possível pensar a loucura como pertinente e necessária à dimensão humana, e de fato, afirmou que só seria humano quem tivesse a virtualidade da loucura, argumentando que a razão humana só se realizaria através dela, então a sabedoria que Paulo menciona seria a mais humana de todas. Logo sendo a experiência essencial ao homem há experiência na loucura.
Contudo a 'loucura' de Paulo se veste em trajes mais simples; é louco aquele que crê naquilo que não se vê. Mas para Paulo Cristo era experiência, uma experiência que refletia sobre o mundo sensível. Me permito ilustrar em cores pitorescas a reflexão de Kierkegaard: onde a fé começa nos limites da razão, crer naquilo que não se vê, pelo efêmero processo dialético desse recluso amador que vos fala, é a mais humana experiência possível. Então onde está o grande raciocínio do século, se por ventura Deus tornou louca a sabedoria do mundo? Na mais humana experiência possível: Cristo.
Ouso expor por fim uma citação de Pier Paolo Passolini; uma citação sobre uma de suas obras-primas "O evangelho segundo São Mateus"; na época convidado por João XXIII para participar de um encontro com artistas em Assis, em 1962, Pasolini deparou-se no quarto de seu hotel com um exemplar do evangelho de Mateus e, encantado, fez toda a leitura do texto e ali mesmo teve a ideia de fazer um filme sobre o tema. Pasolini relata que quis com esse filme fazer poesia. Sublinha em depoimento de 1985, num debate sobre o ciclo dos anos 1960, que o que pretendeu fazer no filme foi uma “obra de poesia” e não uma obra religiosa ou ideológica, no sentido comum que tais termos evocam. E acrescenta: “Em palavras simples: eu não acredito que Cristo seja filho de Deus, porque não sou crente – pelo menos conscientemente (loucura?). Mas acredito que Cristo seja divino: isto é, creio que nele a humanidade é uma coisa tão elevada, tão rigorosa e ideal que ultrapassa os termos comuns da humanidade. Por isso falo em ‘poesia’: instrumento irracional para exprimir este meu sentimento irracional por Cristo”.
PS: É dessa 'poesia' que a evangelização cristã necessita, cujo o buraco que sua ausência cava no mundo só a mais humana experiência do mundo pode cobrir.
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